A gente se ilude pensando que a palavra “férias” significa largar o trabalho e atravessar o oceano para ver todos os filmes, todas as exposições e cair de boca nas compras. Mas que nada, férias de verdade mesmo seria se todos os momentos do dia fossem só prazeres – o que, convenhamos, não é fácil.
Nada de aproveitar e ir ao médico para trocar o grau dos óculos, tirar aquele sinal da pele ou fazer um check-up; dentista, nem pensar. Para cuidar dessas coisas desagradáveis, você tem 11 longos meses no ano.
Para que as férias sejam mesmo ideais, é preciso que o Universo conspire a seu favor, e essa é a parte mais difícil. A família, por exemplo, só deveria aparecer para dar boas notícias, e alguém se encarregaria de censurar os jornais, escondendo todas as tragédias, a fim de afastar qualquer pensamento que não seja de alegria, fé e esperança.
Nesse mês, seria permitido parar o carro em fila dupla às 6 da tarde em qualquer lugar da cidade para comprar uma sandália nova, e o governo baixaria uma medida provisória determinando que quem está de férias não paga conta nenhuma: o gás, a luz, o telefone, o aluguel, o médico, o cabeleireiro, o colégio das crianças, os restaurantes, o supermercado, e até as delicatessens respeitariam o nosso direito à felicidade e à despreocupação. Não seria um sonho?
Tem mais: ficaríamos liberadas da ginástica, e um dispositivo especial filtraria os telefonemas e só liberaria os chamados de pessoas muito queridas. Não choveria, a temperatura oscilaria entre 20 e 25 graus de dia e cairia à noite, o suficiente para que as mulheres pudessem sair de mantô com suas botas maravilhosas, como elas adoram.
Durante esse mês, os amigos estariam amando e sendo muito amados, sem problemas de dinheiro, e os mercados estariam cheios de mangas, morangos, jabuticabas, cajus e pitangas – tudo ao mesmo tempo. Os ladrões e assassinos dariam uma trégua a quem estivesse de férias, a seleção do Brasil jogaria durante quatro domingos seguidos uma final de Copa (e venceria sempre). Seriam 30 dias em que não se pegaria um só resfriado, a coluna não daria sinal de vida, o plano de saúde dispensaria o pagamento da mensalidade e quem desse más notícias seria preso. Antigos namorados apareceriam com flores e bombons dizendo que você foi a mulher da vida deles, o que é sempre muito bom de ouvir. Os filhos não nos dariam preocupações, e até aquela cozinheira maravilhosa que te deixou para abrir um restaurante bateria na sua porta querendo voltar.
Danuza Leão é cronista, autora de vários livros, entre os quais Na Sala com Danuza 2 (ARX) e Quase Tudo (Cia. das Letras)


